Um acontecimento para o país e para a Igreja no país
Há cerca de um ano, quando o cardeal Robert Francis Prevost, agostiniano, foi eleito papa com o nome de Leão XIV, a Argélia rapidamente se referiu a ele como um «filho de Santo Agostinho» e, nessa qualidade, quase como um filho da Argélia! Mas porquê? Porque o Papa é agostiniano, e foi prior-geral da Ordem de Santo Agostinho de 2001 a 2013 e, nessa qualidade, já tinha visitado os seus irmãos e irmãs agostinianos presentes na Argélia.
O próprio Papa se definiu, desde o início do seu pontificado, como «filho de Santo Agostinho» e manifestou o desejo de visitar a Argélia. Já ali tinha estado em 2001 como orador no colóquio internacional organizado em Argel e Hipona por iniciativa do Presidente Bouteflika. Regressou lá uma segunda vez em 2013-14, enquanto superior geral dos agostinianos e, desta vez, como Papa (Santa Sé), a convite do Presidente da República da Argélia.
É claro que o bispo da diocese de Constantina (diocese do leste da Argélia, onde se situa a cidade de Annaba, cidade de Santo Agostinho), as irmãs agostinianas e os irmãos agostinianos celebraram devidamente a eleição do novo papa!
As irmãs agostinianas encontram-se sobretudo em Argel, inseridas há muito tempo num bairro popular (como enfermeiras, animadoras de bibliotecas e de atividades para mulheres), fiéis apesar das suas duas irmãs assassinadas nos anos de terrorismo. Quanto aos padres agostinianos, estão encarregados da animação e do acolhimento na majestosa basílica de Santo Agostinho, recentemente restaurada, um pouco isolada no topo de uma colina, dominando as ruínas da antiga basílica de Santo Agostinho. Eles exercem este apostolado de acolhimento de peregrinos de diversas categorias: cristãos que vivem no país, argelinos emigrados de passagem na Argélia, viajantes e turistas argelinos do país… tal como faz o nosso confrade Raymond Gonnet há quase dois anos no sul da Argélia, em Beni Abbès, local marcado por outro grande antepassado cristão: Charles de Foucauld.
No que diz respeito ao Estado argelino, é realmente importante sublinhar que a visita do Papa, nos dias 13 e 14 de abril de 2026, foi muito bem preparada, muito bem organizada e muito bem acompanhada pelos meios de comunicação escritos, jornais, rádio, televisão, vídeo, etc… e de forma muito positiva. Este norte-americano, cultural e apostolicamente um pouco mestiço, e que se expressa em inglês, língua atualmente promovida na Argélia, foi acolhido de forma positiva aqui.
Esta visita papal foi vivida pela população argelina com muito orgulho. Em primeiro lugar, porque deu aos argelinos a oportunidade de expressar e viver a sua grande tradição de hospitalidade. Em segundo lugar, porque, FINALMENTE, deu ao mundo inteiro a imagem de uma Argélia nova, FINALMENTE diferente da Argélia do terrorismo. E, por último, proporcionou ao país, assim como à Igreja, a oportunidade de evocar um período da história argelina, anterior ao período do Islão, rico pelo seu prestígio cultural, económico e religioso, cristão… com destaque, evidentemente, para Santo Agostinho.
É claro que a memória dos mártires (18 sacerdotes, religiosos e religiosas e um bispo foram assassinados entre 1993 e 1996 na Argélia (e foram beatificados em 2018), durante uma década marcada por uma guerra civil que causou entre 150 000 e 200 000 mortos) estava presente, mas sem ocupar todo o espaço, dando assim voz também às condições de vida mais pacíficas, tanto para a população como para os católicos.
Durante o seu primeiro dia, que decorreu na capital, com a sua visita ao monumento aos mártires da guerra de independência da Argélia, o Papa honrou a memória ferida do país: um gesto muito apreciado pela Argélia. Através da sua visita pastoral à grande mesquita nova de Argel e da sua mensagem, sublinhou a importância da coexistência pacífica entre pessoas de diferentes religiões. Através da sua mensagem às autoridades, recordou que aqueles que estão no poder devem continuar a servir o povo, sem receio do que os jovens possam trazer para uma Argélia que já se encontra no bom caminho. Durante o tempo passado na basílica de Nossa Senhora de África, nas alturas de Argel, realizaram-se alguns encontros bem preparados e supervisionados.
Estes aspetos positivos da visita do Papa não eliminam certas dificuldades: a dificuldade em obter vistos, as atitudes por vezes racistas de certas pessoas, a dureza da vida dos argelinos mais pobres, a vida muito precária e insegura dos migrantes, a ameaça que paira sobre os habitantes do país devido às suas diferentes escolhas de vida…
Esperamos que todos estes momentos marcantes para o país e para a Igreja neste país, bem como as diversas mensagens oficiais, possam contribuir para fortalecer a Igreja neste país e, pouco a pouco, chegar a todos. E que a Argélia continue a trilhar o seu caminho rumo a um maior bem-estar para todos.
O segundo dia da visita do Papa à Argélia decorreu em Annaba-Hipona, na cidade de Santo Agostinho: visita aos seus irmãos agostinianos, visita muito apreciada a uma casa das Pequenas Irmãs dos Pobres, onde são acolhidas e vivem pessoas idosas carenciadas. Seguiu-se a celebração da missa (um pouco clássica e fria…), mas eis algumas frases da homilia:
«Nesta terra, queridos cristãos da Argélia, permaneçam um sinal humilde e fiel do amor de Cristo. Testemunhem o Evangelho através de gestos simples, de relações autênticas e de um diálogo vivido no dia-a-dia:
Desta forma, darão sabor e luz ao lugar onde vivem. (…) A vossa história é feita de acolhimento generoso e de perseverança na provação: foi aqui que os mártires rezaram, foi aqui que Santo Agostinho amou o seu rebanho, buscando a verdade com paixão e servindo a Cristo com fé ardente. Sejam os herdeiros desta tradição, testemunhando, na caridade fraterna, a liberdade daqueles que nascem do alto como uma esperança de salvação para o mundo»
Nesta altura em que esperamos poder fortalecer a nossa comunidade dos Espiritanos na Argélia, esta visita encoraja-nos na nossa vida apostólica, consagrada mais especialmente ao diálogo com os muçulmanos, a viver diariamente de diversas formas.
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