A 29 de abril de 1979, por ocasião da primeira beatificação do seu pontificado, o Papa João Paulo II elevou o Padre Jacques-Désiré Laval à glória dos altares. É impressionante verificar que, na sua homilia, ele não se limita a celebrar um missionário do passado: convida-nos a contemplar um homem inteiramente entregue a Deus, cuja vida continua a ser uma luz para a Igreja de hoje.
O Padre Laval não nasceu missionário. Médico normando, homem inserido na vida mundana, passou por uma longa luta interior antes de responder ao chamamento do Senhor. Ao abandonar a sua profissão, ao renunciar a uma existência confortável, abriu um caminho de despojamento que o conduziu até à Ilha Maurícia, no meio dos mais pobres, dos antigos escravos, daqueles a quem chamava com ternura os seus «queridos negros». Lá, durante vinte e três anos, deu tudo: o seu tempo, as suas forças, o seu coração.
O Santo Padre sublinha que Laval nunca separou o anúncio do Evangelho do cuidado concreto com as pessoas. Antigo médico, sabia que a dignidade humana também se recupera através da saúde, da higiene e da justiça. A sua missão concretizava-se na vida real, atenta às feridas visíveis e invisíveis. Evangelizava ao curar e curava ao evangelizar. A sua maneira de anunciar Cristo era de uma grande simplicidade. Não procurava nem cerimónias pomposas nem discursos brilhantes. Avançava através da proximidade, da escuta, da paciência. Formava em pequenos grupos, voltava incessantemente ao essencial, construía capelas modestas para que cada comunidade tivesse um local onde rezar. A sua pedagogia era a do quotidiano: uma fé sólida, enraizada na vida real.
Laval foi também um precursor. Muito antes de a Igreja falar de corresponsabilidade, ele compreendeu que os próprios pobres deviam tornar-se evangelizadores dos pobres. Rodeou-se de colaboradores locais, homens e mulheres, líderes de oração, catequistas, visitantes de doentes. Fez crescer uma Igreja onde todos tinham o seu lugar, onde a missão não dependia de um único homem, mas de um povo que se levanta.
De onde vinha essa força interior? João Paulo II dá-nos a chave: o segredo de Laval é a sua santidade, uma santidade humilde, alimentada por longas horas perante o Santíssimo Sacramento, por uma confiança absoluta na Virgem Maria, por uma vida oferecida em silêncio. Ele considerava-se morno, árido, insuficiente. Mas essa pobreza interior era precisamente o lugar onde Deus podia fazer tudo. A sua paciência apostólica, a sua doçura, a sua coragem provinham daí: de um coração que se apoia apenas em Deus.
Ao reler esta homilia, leitura para a qual vos convido, descobrimos um companheiro para o nosso próprio caminho. Laval ensina-nos que a missão nasce da escuta, da fidelidade às pequenas coisas, da proximidade com os mais frágeis. Ele recorda-nos que a verdadeira alegria apostólica ultrapassa o simples entusiasmo passageiro para se tornar uma luz que brota de uma vida entregue. Mostra-nos que a santidade reside numa caminhada quotidiana, humilde e perseverante, ao alcance de todos.
E a palavra do Papa São João Paulo II ressoa ainda hoje: «Que ele seja a alegria e o estímulo de todos os religiosos espiritanos… Que encoraje todos aqueles que se esforçam por construir um mundo fraterno, isento de preconceitos raciais.» Nesta luz, o Beato Padre Laval continua a ser para nós um guia: um homem que permitiu que Deus alargasse o seu coração, um missionário que fez da caridade o seu único método, um irmão que nos lembra que o Evangelho começa sempre por um gesto de proximidade. Nele, a chama de Poullart des Places e a intuição do Padre Libermann unem-se e encarnam-se numa vida inteiramente doada.
Crispin Mbumba, CSSp
Para o dia 9 de setembro de 2026
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