Tema: a liberdade interior abre as portas ao acolhimento
Neste primeiro dia, somos convidados a entrar na novena através de um movimento interior de descentramento. Viver em comunidade intercultural, tal como seguir Jesus, começa por uma renúncia essencial: deixar de fazer de si mesmo, da sua cultura ou dos seus hábitos o ponto de referência último. Ao meditarmos hoje, peçamos a graça de uma verdadeira liberdade interior, que nos torne disponíveis para Deus e abertos aos irmãos e irmãs com quem partilhamos a vida. Que o Espírito Santo nos ensine a acolher aquilo que nos perturba e nos abala, não com medo ou retraimento, mas como um caminho de crescimento e de comunhão.
Palavra de Deus: Lucas 9, 23–24
«Se alguém quiser vir após mim, renuncie a si mesmo,
tome a sua cruz todos os dias e siga-me.
Pois quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á,
mas quem perder a sua vida por minha causa, salvá-la-á.»
Poullart des Places
“Ó meu Deus, que conduzis à Jerusalém celestial os homens que verdadeiramente se confiam a Vós, recorro à vossa divina Providência, abandono-me inteiramente a ela, renuncio à minha inclinação, aos meus apetites e à minha própria vontade para seguir cegamente a vossa. Dignai-vos a dar-me a conhecer o que Vós quereis que eu faça, para que, cumprindo aqui na terra o modo de vida a que Vós me destinaste, eu possa servir-Vos, durante a minha peregrinação, num estado em que Vós me acheis agradável…”
Interesse intercultural
Atitude de descentramento, condição prévia para qualquer encontro com o outro e para qualquer saída do etnocentrismo.
Após o retiro de 1701, Cláudio Poullart des Places deixou de viver voltado para si mesmo, em busca do reconhecimento dos outros. Ele deseja fazer em tudo a vontade de Deus e, para agradecer ao seu “Libertador”, sente-se feliz por “poder aliviá-lo na pessoa dos pobres que são os seus membros”. Não se contenta em agir em seu favor, vai habitar com eles e tornar-se ele próprio um pobre entre eles.
Reflexão
A renúncia às suas inclinações e à sua própria vontade não é uma negação de si mesmo, mas um acto de fé baseado na confiança numa Providência transcendente. Inscrita na tradição inaciana da indiferença espiritual, permite aceder a uma verdadeira liberdade ao descentrar o indivíduo da sua posição de centro organizador do sentido. Esta atitude abre um espaço de encontro com o outro — seja ele humano ou divino — numa perspetiva em que a identidade se recebe e se constrói através do acolhimento da alteridade. Este descentramento torna-se assim um princípio fundamental do encontro intercultural autêntico: a perda do domínio dos quadros interpretativos pessoais torna possível a abertura a visões de mundo diferentes. A escolha de um estado de vida surge, assim, como uma saída de si mesmo, análoga ao Êxodo bíblico, onde a identidade é recebida no encontro, em vez de se produzir no entre-si.
Oração
Senhor Deus, vós que nos chamais a seguir-vos, ensinai-nos a renunciar ao que nos aprisiona em nós mesmos. Livrai-nos da necessidade de ter sempre razão, de fazer da nossa cultura ou dos nossos hábitos a medida de tudo. Dai-nos um coração livre e disponível, capaz de se deixar mover pela vossa Palavra e pela presença dos nossos irmãos e irmãs. Que a nossa comunidade se torne um lugar onde cada um aprenda a colocar-se de lado para dar lugar ao Espírito. Ámen.
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