Tema: Desapego das visões humanas
Este terceiro dia convida-nos a um olhar crítico e de fé sobre as nossas próprias culturas. Cada uma delas traz riquezas, mas também limites, condicionamentos e, por vezes, ídolos. A vida intercultural torna-se fecunda quando aceitamos deixar que a Palavra de Deus questione as nossas formas de pensar, de decidir e de viver juntos. Peçamos a graça do discernimento para reconhecer o que vem de Deus e o que decorre apenas da nossa lógica humana.
Palavra de Deus: Romanos 12, 1–2
‘Peço-vos, irmãos, pela misericórdia de Deus, que vos ofereçais a vós mesmos como sacrifício vivo, santo, agradável a Deus, como culto espiritual.
Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos, pela renovação espiritual da vossa mente, para saberdes discernir, segundo a vontade de Deus, o que é bom, o que Lhe é agradável, o que é perfeito’.
Poullart des Places
“Aí onde eu encontrar os vossos interesses, ficarei para os preservar, mas aí onde eu encontrar apenas os do mundo, fugirei como se fosse da serpente. Se eu tiver a felicidade, meu Deus, [de encontrar o estado] em que a vossa divina Providência deseja que eu a sirva, Vós dar-me-eis as graças que me serão necessárias para ter sempre presente na minha mente a questão da minha salvação, e para esquecer todas as outras da vida. Desligo-me, meu Deus, de todas as visões humanas que tive até agora em todas as escolhas de vida em que pensei”
Interesse intercultural
Distanciamento crítico das normas sociais dominantes, frequentemente culturais, antes de qualquer escolha.
Em 1702, Cláudio Poullart des Places confessa que “a participação no corpo de Jesus” o levava a “desprezar o mundo e os seus costumes”, que pouco se importava “em ter a sua estima” e que, por vezes, procurava mesmo “desagradá-lo, contrariando os seus costumes.”. Para a tonsura, escolheu “o hábito e a simplicidade dos eclesiásticos mais reformados”, sem se preocupar “com o que se pudesse dizer a esse respeito”.
Reflexão: Desapegar-se das «visões humanas»: discernimento crítico das culturas
A rejeição das “visões humanas” não significa um desprezo pelo mundo, mas uma crítica espiritual às lógicas do poder, da glória e do sucesso. Teologicamente, trata-se de um discernimento dos espíritos: o que pertence a Deus e o que pertence ao mundo, no sentido joanino. Esta atitude implica a capacidade de questionar as normas implícitas do seu meio social e cultural. Numa perspetiva intercultural, este discernimento é essencial: toda a cultura traz em si valores, mas também ídolos. O crente é chamado a uma relação crítica com a sua própria cultura antes de julgar a dos outros. A escolha de um estado de vida torna-se assim um ato profético, capaz de resistir aos determinismos sociais e culturais dominantes.
Oração
Espírito Santo, vós que iluminais os corações, ensinai-nos a reler as nossas culturas à luz do Evangelho.
Ajudai-nos a reconhecer o que provém de vós e o que decorre apenas da nossa lógica humana. Libertai-nos dos ídolos ocultos do poder, do sucesso ou da dominação. Conduzi a nossa comunidade por caminhos de verdade, justiça e paz. Ámen.
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