Palavra de Deus: Dt 6, 5
“Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças.”
Reflexão dos Fundadores
Durante o seu retiro de 1701, Cláudio Poullart des Places, no silêncio e na oração, releu a sua história e descobriu que o amor de Deus sempre o precedeu, sem nunca se cansar. Convencido de que só Deus o ama com um amor verdadeiro, pôde então escrever:
“Agora, Senhor, arrependo-me das minhas cegueiras, renuncio de todo o coração a todas as coisas que me obrigavam a fugir de Ti, (…) desce ao coração onde há tanto tempo desejas entrar: ele só terá ouvidos para Ti e, doravante, não nutrirá outros afetos senão o de amar-Te como deve.” (Retiro de 1701, Reflexões sobre as Verdades da Religião).
Em Francisco Libermann, a primazia absoluta de Deus habita a sua alma como uma fonte viva.
Ela está profundamente enraizada no Shema Israel do Deuteronómio (Dt 6,5). Desde o início, quando ainda era apenas um jovem seminarista, a 30 de agosto de 1835, escreve a outro seminarista:
“Peço-te que ames a Deus com toda a tua alma, com todo o teu coração, com todas as tuas forças. Fora disso, não há nada de bom na terra nem no céu… Mas sabes o que é amar a Deus assim? É quando não temos nenhum afeto nem desejo fora de Deus, mas todos estão concentrados somente n’Ele. […] Enquanto o nosso coração estiver dividido entre Deus e as criaturas, não pode fazer um verdadeiro progresso no santíssimo amor.” (LS 1, 107-109)
Esta intuição aprofundar-se-á ainda mais. No crepúsculo da sua vida, Libermann resumirá toda a sua experiência espiritual em algumas palavras que se tornaram famosas: “… Sacrifica-te por Jesus, só por Jesus. Deus é tudo; o homem não é nada…”
Reflexão
A primazia de Deus é o fundamento da espiritualidade espiritana. Ela nasce de um encontro: o de um coração que descobre que Deus o precedeu, que o ama, que o chama para uma vida maior do que ele próprio. Não se pode ser verdadeiramente espiritano sem este encontro fundador. Poullart e Libermann, cada um na sua história, viveram esta reviravolta interior.
Poullart des Places vive essa experiência quando relê a sua história sob o olhar de Deus. Ele compreende que Deus o acompanhou desde sempre, com uma fidelidade paciente, e que o Senhor nunca deixou de bater à porta do seu coração. Sob esse olhar amoroso, consegue finalmente ver-se tal como é, com as suas forças e fraquezas, as suas sombras e a sua luz: um pobre pecador, profundamente amado por Deus.
A luz recebida leva-o a um abandono confiante. Ao dizer a Deus: “Entra no coração onde, há muito, desejas entrar”, Poullart dá primazia a Deus e deixa-O guiá-lo e tornar-se o centro vivo da sua vida. Ao deixar Deus agir nele, Poullart des Places vê-se conduzido por caminhos que não tinha imaginado: o serviço aos pobres, a vida fraterna, a fundação de um seminário. Tantas respostas inesperadas, tornadas possíveis por um coração que escolheu deixar-se conduzir.
Libermann, por seu lado, carrega dentro de si a intuição profunda do Absoluto de Deus. Herdada da sua fé judaica e transfigurada pelo seu encontro com Cristo, essa convicção torna-se a chave da sua vida espiritual e missionária. Dizer “Deus é tudo” não significa negar o valor do homem, mas reconhecer que a sua verdadeira grandeza nasce da sua dependência de Deus. Quanto mais o homem se esvazia de si mesmo, mais se torna capaz de receber a luz, a força e a caridade de Cristo.
Em muitas das suas cartas, Libermann volta incessantemente a esta profunda convicção que o habita: “Só Deus”, “já só tenho Deus”,
“Só Deus, só Deus. Sempre só Deus… só se deve ver Deus em todas as coisas” (LS 1,153), “Não entregues a tua alma senão a Deus, que deve ser o teu tudo, em todos os momentos e em todas as circunstâncias” (LS 1,195).
O amor pleno por Deus traz consigo a necessidade de viver na sua presença, e a oração torna-se então uma respiração que impregna toda a vida.
Assim, Poullart e Libermann estão de acordo: colocar Deus em primeiro lugar não esmaga o homem, mas liberta-o e abre nele um espaço interior onde o Espírito pode agir, inspirar, enviar.
Questões para reflexão
- Que apegos, medos ou certezas ainda me impedem de deixar Deus ocupar plenamente o primeiro lugar na minha vida?
- Que gesto concreto, mesmo que simples, posso fazer para que as minhas escolhas, os meus compromissos e as minhas relações reflitam mais que Deus é o meu Tudo?
Oração
Senhor Deus de toda a ternura, tu que nos amaste primeiro, abre o nosso coração à tua presença.
Ensina-nos a amar-te com todo o nosso coração, com toda a nossa alma e com todas as nossas forças. Purifica o nosso coração de tudo o que o divide e torna-nos plenamente disponíveis ao teu Espírito.
Só Tu nos bastas: Senhor, sê o nosso Tudo.
Dá-nos a graça de desejar apenas “Só a Ti”, de voltar para Ti os nossos desejos, as nossas forças e o ímpeto profundo da nossa vida, para que sejas o único centro da nossa vida. Ámen.
Esta publicação também está disponível em:









