Palavra de Deus: Col 3, 1-4
“Irmãos, já que ressuscitastes com Cristo, procurai as coisas do alto, onde está Cristo, sentado à direita de Deus. Pensai nas coisas do alto, não nas da terra. Pois morrestes, e a vossa vida está agora escondida com Cristo em Deus: quando Cristo for manifestado, aquele que é a vossa vida, então também vós sereis manifestados com ele, cheios de glória.”
Perspetiva dos Fundadores
A pobreza, na tradição espiritana, surge como um desapego material que abre sobretudo um caminho interior: aquele pelo qual o homem se deixa configurar inteiramente ao Cristo pobre. Poullart des Places oferece-nos um testemunho marcante. Proveniente de uma família abastada de Rennes, destinado a uma vida mundana, brilhante e reconhecida, escolheu livremente a pobreza como caminho evangélico. Nesse caminho, entregou-se sem reservas a Deus, até ao sacrifício da sua vida. O seu desejo radical transparece nas suas próprias palavras: “Queria ver-me um dia desprovido de tudo, vivendo apenas de esmolas; por ter dado tudo, não pretendia guardar nenhum dos bens temporais senão a saúde, da qual desejava fazer um sacrifício total a Deus no trabalho das Missões. Seria muito feliz se, depois de ter inflamado todo o mundo com o amor de Deus, tivesse podido dar até à última gota do meu sangue por Aquele cujos benefícios me eram quase sempre presentes.” (Retiro de 1704, Reflexões sobre o passado)
Por seu lado, Libermann aprofunda esta intuição, mostrando que a verdadeira pobreza não é, em primeiro lugar, uma renúncia exterior, mas um estado do coração, um espaço interior onde o Espírito se torna o único princípio de vida. Ele convida a uma disponibilidade total, a uma forma de existir em que o homem se deixa conduzir inteiramente por Deus:
“Permanece nas mãos de Deus como um homem morto e aniquilado… Não vivas nem sintas senão Deus e segundo Deus. (…) Não tenhas, portanto, mais vida própria, mas deixa-O viver sozinho em ti. Não procures nada e não tenhas nenhum movimento por ti mesmo, mas que só Ele seja a única vida e o único movimento da tua alma. É preciso que estejamos totalmente mortos para nós mesmos e para todas as coisas; e então a nossa vida estará escondida em Deus com Nosso Senhor (cf. Col 3,3), a quem estaremos intimamente unidos por todas as forças da nossa alma. Estando esta totalmente vazia das criaturas e de si mesma, o Espírito de Nosso Senhor será toda a vida nela.” (ND I, 214-215)
Para Libermann, esta pobreza interior vem acompanhada de uma profunda humildade, uma atitude que une a consciência do nosso nada e a grandeza da vocação recebida: Deus escolhe o que é fraco para manifestar a sua força.
Reflexão
À luz dos nossos Fundadores, a pobreza espiritana surge como um caminho interior onde o homem se deixa moldar por Deus para se tornar fonte de vida apostólica. Implica um desapego material, mas realiza-se sobretudo como uma forma de estar perante Deus: uma atitude que consiste em receber tudo Dele, viver Dele, agir por Ele.
A experiência de Cláudio Poullart des Places ilumina esse caminho. O seu encontro com os pobres inscreve-se num verdadeiro itinerário espiritual. Do Hospital Saint-Yves aos limpa-chaminés da Sabóia, e depois aos aspirantes a padres pobres, ele descobre que a pobreza não é apenas uma realidade social: torna-se para ele um apelo interior que alarga o seu coração e converte o seu olhar. Em 1703, dá um passo decisivo: escolhe viver com os pobres, na sua simplicidade e no seu despojamento. São eles que, pouco a pouco, o libertam das suas seguranças e privilégios, enraizando-o numa confiança total em Deus. A sua casa torna-se um cenáculo onde a pobreza é vivida como mística do Reino. A sua morte, ocorrida no meio daqueles que ele escolheu como irmãos, manifesta a consumação deste percurso: a pobreza livremente abraçada realiza-se na doação total de si mesmo. Assim, o seu legado permanece: ser pobre para servir os pobres, até ao fim, numa confiança absoluta no Espírito Santo.
Para Libermann, a verdadeira pobreza é um estado do coração em que o Espírito se torna o único princípio de vida. O homem apostólico sabe que é pobre porque não é nada além do que recebe de Deus; é pobre porque permanece vazio, em oração, a pedir; é pobre porque devolve tudo o que recebe, tal como o recebe, como vindo de Deus. Esta atitude interior abre o homem à própria dinâmica de Deus, que Libermann descreve através da imagem da Fonte. Nesta perspetiva, Deus surge como Dom: o Pai, Dom criador e misericordioso, o Filho, Dom total de si mesmo até à morte, o Espírito, Dom do Pai e do Filho, sendo cada um deles Fonte de vida para a humanidade.
Perante este mistério, o homem apostólico reconhece-se como fundo de pobreza, inteiramente voltado para acolher o Dom de Deus. Quanto mais se esvazia de si mesmo, mais se torna rico em Deus. Assim, Deus, Fonte de vida, permite que o homem se torne também fonte e rio: a pobreza espiritual torna-se a condição de uma fecundidade apostólica, pois deixa circular nele a própria riqueza de Deus.
É por isso que Libermann descreve o apóstolo como um instrumento nas mãos de Deus, empregado segundo os desígnios do Mestre. É nessa disponibilidade interior, enraizada na pobreza do coração, que o homem se torna verdadeiramente portador da Fonte de vida.
Questões para reflexão
- À luz do percurso de Claude Poullart des Places, de que forma as situações de precariedade material, social ou espiritual com que nos deparamos hoje despertam em nós um apelo renovado à missão?
- De que forma o apelo de Libermann à pobreza interior ilumina a nossa maneira de rezar e de viver a comunidade como um espaço onde aprendemos juntos a receber tudo de Deus?
Oração
Senhor Jesus, tu que te fizeste pobre para nos enriqueceres com o teu amor, abre o nosso coração a essa pobreza que deixa todo o espaço ao teu Espírito. Seguindo o exemplo de Cláudio Poullart des Places, ensina-nos a abandonar as nossas seguranças para entrarmos na confiança. Na escola do Venerável Libermann, faz de nós instrumentos dóceis nas tuas mãos.
Senhor, esvazia-nos de nós mesmos e torna-nos pobres para estarmos disponíveis, pobres para sermos fraternos, pobres para sermos missionários. Que tudo em nós seja teu, e que tudo em nós fale de ti.
Ámen
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