Palavra de Deus: Lc 4, 14-19
“Jesus voltou para a Galileia, com o poder do Espírito, e a sua fama espalhou-se por toda a região… Ele ensinava nas sinagogas, louvado por todos. Chegou a Nazaré, onde tinha sido criado, entrou na sinagoga, como era seu costume no dia de sábado, e levantou-se para ler. Entregaram-lhe o livro do profeta Isaías e, ao desenrolar o livro, encontrou a passagem onde estava escrito: O Espírito do Senhor está sobre mim, porque Ele me ungiu, para levar a boa nova aos pobres. Enviou-me para anunciar aos cativos a libertação e aos cegos a recuperação da vista, para libertar os oprimidos e proclamar um ano de graça do Senhor.”
Reflexão dos Fundadores
Desde o início, a espiritualidade espiritana traz a marca de uma consagração explícita ao Espírito Santo.
Cláudio Poullart des Places não desenvolve uma teologia sistemática do Espírito, mas a sua vida está profundamente impregnada por Ele. A sua fé bretã orienta-o muito cedo para Ele, e o seu gesto fundador é o sinal mais claro disso: a 27 de maio de 1703, dia de Pentecostes, ele consagra a sua pequena comunidade ao Espírito Santo, sob a proteção da Virgem Imaculada.
Os primeiros artigos dos seus Regulamentos guardam disso o testemunho:
- Os alunos “adorarão particularmente o Espírito Santo, a quem estão especialmente dedicados”;
- Terão uma “devoção singular” à Virgem Santa, modelo perfeito de docilidade;
- Celebrarão o Pentecostes para obter “o fogo do amor divino” e a Imaculada Conceição para receber “uma pureza angelical”.
Assim, desde o início, a vida espiritana entende-se como uma disponibilidade total ao Espírito, à imagem de Maria.
Um século e meio depois, Francisco Libermann retoma e aprofunda essa intuição fundadora. Na Regra de 1849, falando dos espiritanos, ele afirma claramente: “A Congregação consagra-os especialmente ao Espírito Santo, autor e consumador de toda a santidade e inspirador da ação apostólica.”
Para explicar essa docilidade, Libermann usa outra imagem forte:
“Coloca-te diante do divino Mestre como uma bigorna diante do ferreiro, ou melhor, como o ferro em brasa que ele segura nas tenazes; ele bate nele com golpes redobrados, e o ferro assume todas as formas que ele quer dar-lhe. Tu ainda és como um ferro bruto e duro; é preciso que Nosso Senhor te quebre e te torne maleável através das contradições e das cruzes.” (LS III, 115-116).
Para ele, a docilidade constitui o coração pulsante da espiritualidade espiritana. É um movimento interior profundo que consiste em deixar-se moldar, purificar e conduzir pelo Espírito, até se tornar um instrumento maleável nas mãos de Deus.
Reflexão
Poullart des Places e Libermann expressam profundamente, cada um à sua maneira, essa mesma compreensão da docilidade ao Espírito Santo. Em Poullart, ela expressa-se, em primeiro lugar, como um abandono confiante ao sopro divino. Desde o início, ele convida os seus companheiros a tornarem-se corações abertos e disponíveis à ação de Deus: adorar o Espírito Santo, buscar ardentemente o fogo do amor divino, imitar a disponibilidade interior que permite a Deus agir livremente. Para ele, o que está em jogo é transformar o coração do missionário num espaço livre, capaz de se deixar guiar pelo Espírito.
Com Libermann, essa intuição inicial torna-se um verdadeiro método espiritual, um estilo de vida, uma maneira de ser missionário. Para ele, o Espírito é Aquele que conduz, inspira, une e envia.
Poullart oferece a fonte, Libermann mostra o caminho. Ambos nos convidam a nos tornamos, como Maria, corações disponíveis ao sopro de Deus.
Para Libermann, uma convicção domina: só o Espírito Santo sabe como devemos irradiar Jesus Cristo. Foi-nos dado no batismo para estabelecer em nós a santidade de Cristo. Só Ele nos pode conduzir para a vocação única que Deus sonhou para nós. O que devemos fazer? Nada mais do que deixar-nos conduzir por um caminho que não conhecemos. Libermann expressa-o com força: “Só o Espírito Santo pode fazer-te avançar. Jesus deu-te o seu Espírito para te orientar e guiar. Sê dócil. Se quiseres ir sozinho, sairás desse caminho. Só o Espírito Santo o conhece e pode fazer-te progredir.” (L.S. I, 366)
Quanto mais uma pessoa se entrega a Deus com generosidade, mais o Espírito a invade, a anima e a conduz pelo caminho único da sua conformidade a Cristo e do seu empenho apostólico. Assim, a docilidade ao Espírito Santo não é um aspeto secundário da nossa vocação espiritana: é o seu centro vivo, a fonte de toda a fecundidade missionária.
Questões para reflexão
- Onde estou no caminho da docilidade? Como se situa a minha vida neste movimento de abandono e disponibilidade ao Espírito?
- Como é que o Espírito me configura hoje a Cristo missionário?
Oração
Espírito Santo, tu que inflamaste Poullart des Places e conduziste Libermann passo a passo, abre os nossos corações como abriste o de Maria.
Faz de nós servos flexíveis nas tuas mãos, numa docilidade simples e confiante.
Molda-nos, purifica-nos e toma-nos como uma pena leve levada pelo teu sopro, como um metal que o teu amor trabalha e transforma.
Conduz-nos para onde quiseres e faz de nós testemunhas ardentes para a glória de Deus e a vida do mundo. Ámen.
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