Palavra de Deus: Lc 1, 38
“Eis aqui a serva do Senhor; que tudo me aconteça segundo a tua palavra.”
Reflexão dos Fundadores
Ao fundar o Seminário do Espírito Santo, Poullart des Places queria formar homens capazes de uma disponibilidade radical: prontos para ir onde ninguém queria ir, prontos para servir onde o chamamento de Deus era mais urgente. A sua própria vida testemunha essa atitude interior. Durante o retiro de 1701, ele aceita reorientar a sua vida. Pouco depois, acolhe Jean-Baptiste Faulconnier, discerne com Grignion de Montfort, deixa o conforto do seu colégio de teologia pela pobreza da rue des Cordiers e, a 27 de maio de 1703, consagra-se ao Espírito Santo sob a proteção da Virgem Maria. Em 1704, deixa-se novamente guiar pelo Espírito e pela comunidade durante o seu retiro decisivo.
Para Poullart, é o sinal concreto do amor, a maneira mais verdadeira de responder ao chamamento de Deus e às necessidades dos irmãos e irmãs.
Para Libermann, a docilidade é, antes de mais nada, uma atitude interior. Ele escreve: “Esta docilidade consiste em disponibilidade interior e numa confiança muito grande para que o Espírito possa estabelecer em nós a vida de Jesus” (ND XIII,144).
Toda a vida de Libermann testemunha essa disponibilidade total: acolher as provações sem se revoltar, discernir os chamamentos sem se esquivar deles, avançar sem se apoiar em certezas humanas. Aos seus confrades, ele lembra que a disponibilidade não consiste em esperar garantias, mas em estar pronto para Deus: “Não faças esse raciocínio errado de que é preciso primeiro ir para o certo antes de abraçar o incerto… Se não estivermos inteiramente dedicados ao serviço de Jesus Cristo na sua Igreja, prontos a sacrificar tudo, não vale a pena reunirmo-nos” (ND VI,76).
Para Libermann, estar disponível é deixar-se conduzir para onde o Espírito abre um caminho, mesmo quando esse caminho permanece obscuro. É avançar com confiança, na certeza de que o Espírito nos precede, acompanha e realiza aquilo que não podemos fazer por nós próprios.
Reflexão
A disponibilidade é uma das características mais constantes da espiritualidade espiritana. É ao mesmo tempo abertura a Deus e atenção aos irmãos e irmãs, um movimento interior que atravessa a nossa história desde Poullart des Places até Libermann e que continua hoje a ser o coração da nossa vocação.
Desde o início, Poullart des Places encarna essa atitude. Esse movimento interior traduz-se numa disponibilidade concreta: ir onde se ouve o chamamento de Deus, mesmo nos lugares mais pobres e abandonados. O lema dos primeiros espiritanos resume essa atitude: “Ecce ego, mitte me” – Eis-me aqui, envia-me. A disponibilidade espiritana é esse “sim” permanente que nos torna móveis para a missão e atentos às necessidades da comunidade. Esse movimento de abertura, iniciado por Poullart, é a primeira face do carisma espiritano.
Para Libermann também, a disponibilidade é uma atitude do coração. Ele fala dela como uma “disponibilidade interior e uma confiança muito grande” (ND XIII,144). A própria vida de Libermann é uma longa aprendizagem dessa abertura: avançar sem certezas humanas, acolher as provações, discernir os chamamentos, deixar-se conduzir para onde o Espírito abre um caminho: a desestabilização da sua fé judaica em Metz, a revelação de Cristo a Stanislas, a escolha dolorosa de Jesus em vez do seu pai, o obstáculo da epilepsia, as provações do noviciado eudista, a “pequena luz” que o chamava para o trabalho com os negros, a partida para Roma sem apoio, e depois, o acolhimento do chamamento ao sacerdócio e a abertura de um noviciado em Amiens.
Ele testemunha, através da sua vida e dos seus escritos, que a disponibilidade é um ato de fé no desconhecido. Em vez de procurar garantias, ele convida a avançar na fé, mesmo quando o caminho permanece obscuro. Para ele, estar disponível é aceitar o imprevisto de Deus, estar pronto para Ele e permanecer atento à direção para onde o Seu Espírito conduz, numa abertura confiante ao que Deus quer realizar.
Essa disponibilidade, alimentada pela união com Deus, pela pobreza e pelo desapego interior, torna-se o espaço onde o Espírito pode agir e a fonte da nossa presença missionária. Ela vem acompanhada de uma escuta atenta à realidade, de um discernimento que renuncia ao que já não dá fruto e acolhe o inesperado de Deus. Assim, caminhar na fé, de mãos abertas, continua a ser a maneira espiritana de nos deixarmos preceder e conduzir pelo Espírito.
Neste caminho, Maria continua a ser o nosso modelo. Ela ensina-nos a dizer “sim” sem compreender tudo, a avançar com confiança, a deixar que o Espírito conduza a nossa vida. Assim entendida, a disponibilidade enraíza-se num “sim” renovado que dá origem à missão e nos torna capazes de ir para onde Deus nos espera.
Questões para reflexão
- Em que áreas da minha vida o Espírito me convida hoje a sair das minhas seguranças para dizer um “sim” missionário mais concreto e generoso?
- Como posso hoje manifestar uma disponibilidade mais simples, mais alegre e mais concreta para com as pessoas que Deus coloca no meu caminho?
Oração
Ó meu Deus, tu que conduzes à Jerusalém celestial aqueles que confiam verdadeiramente em ti, entrego-me nas tuas mãos.
Abandono-me à tua divina Providência,
renuncio à minha própria vontade para seguir a tua com simplicidade e confiança.
Faz-me saber o que esperas de mim, para que eu viva aqui na terra o estado de vida que escolheste para mim.
Concede-me as graças necessárias para te servir fielmente e dar glória à tua divina Majestade ao longo da minha peregrinação.
Ámen.
(Oração de Poullart des Places citada por Jean Savoie, Rezar 15 dias com Poullart des Places, p. 34.)
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