Palavra de Deus: Jo 20, 19-22
“Na noite desse mesmo dia, o primeiro da semana, estando as portas fechadas, onde os discípulos se encontravam, por medo dos judeus, Jesus veio, colocou-se no meio deles e disse-lhes: “A paz esteja convosco!” Tendo dito isto, mostrou-lhes as mãos e o lado. Os discípulos encheram-se de alegria ao verem o Senhor. Ele disse-lhes então, novamente: “A paz esteja convosco! Assim como o Pai me enviou, também eu vos envio.” Tendo dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes: “Recebei o Espírito Santo”.
Perspetiva dos Fundadores
Ao longo das gerações, uma convicção moldou a nossa maneira de ser: o Espiritano é um enviado. Esta intuição está inscrita na própria história das nossas origens. Está no nosso ADN espiritual.
Já em 1703, Poullart des Places compreendeu que Deus o chamava para preparar sacerdotes “bons e fiéis”, para que fossem enviados aos lugares onde a Igreja mais precisava de trabalhadores. Na sua carta a Grignion de Montfort, ele deixa transparecer essa certeza interior: “Parece-me que é isso que Deus me pede… Se Deus me conceder a graça de ter sucesso, podes contar com missionários. Eu prepará-los-ei e tu colocá-los-ás em ação.” Ao fundar o Seminário, ele não procura, portanto, realizar um projeto que fosse seu: coloca-se ao serviço de uma missão. Ele quer formar homens capazes de levar o amor do Pai até às periferias humanas e espirituais.
Um século mais tarde, Libermann retoma essa intuição fundadora e dá-lhe uma expressão de grande clareza. Logo nas primeiras linhas das Instruções aos missionários (1851), ele afirma que a nossa vocação “nos coloca ao mesmo nível dos Apóstolos de Jesus Cristo”. Ora, o apóstolo é, por essência, um enviado. Para ele, a missão nunca se define segundo os nossos critérios: ela é recebida. “A nossa missão é a dele”, escreve ele, iluminado pela palavra de Jesus: “Como o Pai me enviou, também eu vos envio.” (Jo 20, 21).
Reflexão
Toda a missão autêntica brota de Cristo, enviado pelo Pai, e Jesus realiza a sua obra na profunda consciência de ser enviado; essa relação dá unidade, força e verdade à sua ação. É nesse movimento que se insere a vocação espiritana: nunca “partimos” de nós mesmos, mas como enviados. A nossa missão não é nossa; é participação na missão de Cristo, que permanece a única missão verdadeira.
Se a missão vem de Cristo, deve também tomar forma nele. Jesus realiza a sua obra numa fidelidade total ao envio do Pai, e é essa forma de ser enviado que se torna para nós a medida do serviço. O Espiritano não se apoia, portanto, nas suas próprias capacidades: procura tornar presente Aquele que o envia. Essa transparência só é possível se ele permanecer enraizado em Cristo. Tal união não é um complemento espiritual, mas a própria condição da missão: é permanecendo em Cristo que a nossa vida apostólica se torna verdadeira participação na sua missão e que a nossa ação deixa transparecer a ação de Deus.
Sem essa união interior, o envio esvazia-se de substância; torna-se a realização dos nossos próprios projetos, das nossas ambições, de nós mesmos.
Antes de ser um envio ou uma atividade, a missão é um estado interior: o da disponibilidade. O Espiritano coloca-se diante de Deus num “Eis-me aqui” humilde e confiante, de onde brota a resposta do discípulo: “Envia-me”. Deixar-se enviar por Deus é aceitar ser deslocado, perturbado, conduzido para onde não se teria escolhido ir. Esta disponibilidade é muito mais do que uma simples flexibilidade humana: é um consentimento profundo à iniciativa de Deus. O missionário entra numa obra que o ultrapassa; recebe uma missão que não lhe pertence. A missão começa ali onde nos disponibilizamos para que Deus chegue aos mais frágeis.
Por fim, a missão recebe-se em comunidade: discernir com os irmãos, acolher a orientação dos superiores como uma mediação do Espírito, e deixar-se conduzir para onde Deus chama hoje. Assim, o envio torna-se um ato partilhado, recebido na fé e vivido com confiança.
Questões para reflexão
- O meu “Eis-me aqui – Envia-me” envolve realmente toda a minha vida? Ou será que certas resistências interiores ainda me impedem de deixar que o Espírito me mova, me surpreenda e me conduza para onde eu não teria escolhido ir?
- A minha maneira de ser missionário reflete realmente a maneira como Jesus foi enviado pelo Pai? Para onde é que o Espírito me chama hoje para crescer nessa união que torna visível a sua presença?
Oração
Senhor Jesus, tu que deste o teu Espírito ao enviar os teus discípulos, estamos diante de ti.
Livra-nos da tentação de nos enviarmos a nós próprios ou de construirmos as nossas próprias seguranças. Torna-nos disponíveis e dóceis ao teu Espírito.
Que a nossa missão tome forma na tua, que a nossa maneira de servir reflita o teu amor e que a tua ação transpareça através da nossa.
Tal como o Pai te enviou, envia-nos hoje. Faz de nós espiritanos segundo o teu coração. Ámen.
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