Palavra de Deus: At 2,42-47
“Os irmãos perseveravam no ensino dos Apóstolos e na comunhão fraterna, na partilha do pão e nas orações. (…) Todos os crentes viviam juntos e tinham tudo em comum; vendiam os seus bens e as suas posses, e repartiam o produto entre todos, de acordo com as necessidades de cada um. Todos os dias, com um só coração, frequentavam assiduamente o Templo, partiam o pão nas casas, tomavam as suas refeições com alegria e simplicidade de coração; louvavam a Deus e gozavam da simpatia de todo o povo. Cada dia que passava, o Senhor aumentava o número dos que recebiam a salvação.”
Perspetiva dos Fundadores
A espiritualidade espiritana não se compreende sem a vida comunitária. Desde os primórdios da Congregação, essa intuição já está presente. Cláudio Poullart des Places, proveniente da alta sociedade e sem qualquer formação prévia para a vida fraterna, descobre a comunidade ao vivê-la. A sua conversão leva-o a partilhar o quotidiano dos seminaristas pobres de quem cuida. No meio destes jovens muito diferentes dele, numa vida simples e sóbria, aprende o que significa seguir Cristo em fraternidade. O retiro de 1704-1705 marca uma viragem: compreende que a fraternidade deve ser estruturada para perdurar. Constitui então uma pequena comunidade de formadores ao serviço dos alunos, lançando assim as bases de uma vida espiritana concebida como um caminho comum. Como homem de lei, ele dá então à comunidade do Espírito Santo uma Regra de Vida de 263 artigos, que ele próprio vive. A vida espiritana nasce assim numa fraternidade regular, simples e evangélica.
Em Libermann, a intuição comunitária afirma-se desde os primeiros passos da sua obra missionária. Quando, em 1839, recebe o projeto da “Obra dos Negros”, aprova-o com a condição de que seja vivida “em congregação”, e não no isolamento. Para ele, a missão exige uma forma comunitária estável, discernida e sustentada.
Essa convicção fica mais clara na Regra Provisória de 1840: a regularidade espiritual — o próprio espírito da vida religiosa — é inseparável da vida em comunidade, mesmo sem coabitação permanente. A saúde espiritual de um corpo missionário depende da qualidade da sua fraternidade. Os Regulamentos de 1849 vão torná-la uma regra fundamental: “Para a perfeição da vida apostólica, para a estabilidade e a expansão das obras, e para a santificação dos seus membros, a Congregação adotou como regra fundamental a vida em comum. Todos os seus membros viverão sempre em comunidade.”[1]
Assim, para Libermann, a comunidade não é um quadro, mas um princípio espiritual: a missão espiritana nasce, alimenta-se e protege-se na vida em comum.
[1] Regulamentos de 1849, n.º 7 e 15; RVS 27.
Reflexão
O Espiritano é um homem de comunidade. Não por mera necessidade prática, mas porque a vida em comum é a seiva que alimenta a nossa vida espiritual e missionária. Desde o início, os nossos fundadores compreenderam que a missão não pode ser levada a cabo por indivíduos isolados, mas por um corpo moldado pelo Espírito. A comunidade não é, portanto, um mero cenário: é um lugar teológico, o espaço onde o Evangelho se encarna. A oração é o seu fôlego: alimenta a caridade fraterna, pacifica as relações e sustenta a missão. Sem ela, a vida em comum reduz-se a uma coabitação frágil; com ela, torna-se um lugar onde cada um aprende a receber-se de Deus e a dar-se aos outros.
Libermann sabia o quanto a oração era essencial para promover a compreensão mútua. Ele recordava que “a vida dos nossos missionários é uma vida de comunidade; eles nunca devem ficar isolados” (ND VI, 438). Consciente das diferenças de caráter e das possíveis tensões, via na oração esse fermento interior capaz de transformar as relações e fazer crescer a unidade. Nas Instruções aos missionários (Cap. II, 3), ele apresenta a comunidade como uma verdadeira escola de santidade: um lugar onde se é apoiado, encorajado, corrigido e reerguido. Para ele, a comunidade é também um baluarte, um escudo coletivo. Isolado, o missionário torna-se vulnerável; unido aos seus irmãos, recebe uma força e uma fidelidade que não poderia manter sozinho. A oração comunitária permite que essa força fraterna se manifeste e perdure.
Assim, a fraternidade é muito mais do que um apoio à missão: ela já constitui uma expressão plena e completa da mesma. O que anunciamos, temos de o viver primeiro entre nós. Uma comunidade que reza, que partilha, que perdoa e que acolhe as diferenças torna-se uma catequese viva. A nossa maneira de viver juntos já é um anúncio do Evangelho, uma pregação em ação.
As nossas comunidades internacionais e interculturais são um sinal particularmente eloquente disso. São, no dia a dia, verdadeiros lugares de Pentecostes, onde o Espírito reúne pessoas de línguas, culturas e histórias diferentes para as tornar um só corpo. Testemunham que o Evangelho pode unir o que tudo parece separar, e que a fraternidade é uma realidade concreta, embora frágil e bela, que exige paciência, oração e conversão diária.
A comunidade torna-se assim a nossa forma de viver a missão, ou seja, um espaço onde o Espírito continua a criar unidade na diversidade, e onde a vida partilhada torna visível o próprio objetivo da evangelização: fazer nascer uma fraternidade cristã.
Questões para reflexão
- Que conversões sou chamado a viver para que a minha forma de estar em comunidade — ou em família — se torne um verdadeiro anúncio do Evangelho
- As nossas comunidades dão vontade de acreditar na fraternidade cristã? O que é que, na nossa maneira de viver, atrai, questiona ou desmotiva? Que sinais do Espírito discernimos nelas?
Oração
Espírito de Pentecostes, Tu que reúnes os corações e fazes crescer a comunhão, vem habitar no meio das nossas comunidades. Espírito de Jesus, forma em nós um só coração e uma só alma. Ensina-nos novamente a rezar juntos, a acolher-nos nas nossas diferenças e a viver uma fraternidade autêntica, atenta às necessidades de cada um, alegre no serviço e unida no amor.
Espírito do Pai, sopra em nós, para que a nossa maneira de viver juntos se torne um sinal que atraia para Ti todos os Teus filhos. Ámen.
Esta publicação também está disponível em:













