Palavra de Deus: Marcos 10,45
“O Filho do Homem veio para servir e dar a sua vida em resgate pela multidão”.
Reflexão dos Fundadores
Libermann está habitado por uma convicção profunda: Deus age na vida e nos acontecimentos através do seu Espírito. Esta presença discreta, mas real, confere um valor sagrado aos mais pequenos detalhes da vida. Através de cada situação, ele reconhece o Espírito Santo como Aquele que anima, fortalece, orienta e guia, convidando cada um a caminhar com confiança na direção desejada por Deus. A sua maneira de viver reflete essa fé. Libermann avançava de acontecimento em acontecimento, sem tentar antecipar o futuro nem controlar o curso das coisas. Deixava-se conduzir com total confiança, acolhendo Deus dia após dia nas realidades mais concretas da sua vida. A sua regra interior era simples: nunca ir mais depressa do que o Espírito Santo lhe propunha. Ele encontrava Deus no momento presente, no acontecimento preciso que vivia e ao qual se abandonava plenamente.
Esta atitude interior, Libermann transmite-a ao P. Tisserant, que estava com demasiada pressa de agir. Ele convida-o a abrandar, a deixar que seja Deus a abrir os caminhos:
“Desejo que esperes e que não dês nenhum passo por enquanto; gostaria de examinar isto algum tempo diante do Bom Deus… Ao apressar-se demasiado, corre-se o risco de estragar alguma coisa, enquanto que, ao consultar Deus durante algum tempo, só se tem a ganhar. Compreendo bem que as iniciativas podem ter a sua utilidade e fazer avançar as coisas, mas numa obra tão grande e tão santa como esta, tudo deve repousar em Deus” (ND I, 667-669).
O que ele recomenda a Tisserant, Libermann aplica-o primeiro a si mesmo. A sua maneira de conduzir os assuntos é marcada por uma disciplina interior exigente: “Determinei para mim mesmo esperar, em tudo, pelos momentos da Providência” (LS III, 371).
Não é, portanto, surpreendente que muitas das suas cartas retomem este mesmo convite à paciência confiante, ao abandono sem agitação nem voluntarismo. Ele escreve assim: “Não te atormentes por não conseguires fazer o que desejas; não forces as coisas, mas espera pela vontade divina” (LS I, 126).
Reflexão
Libermann olha com olhos de fé para os acontecimentos, as pessoas e as coisas. Para ele, Deus age na vida e manifesta-se através das circunstâncias mais comuns. O Deus de Libermann é um Deus que dá sinais na história concreta; nesse sentido, ele continua a ser profundamente filho de rabino, familiarizado com a forma como Deus guiou o seu povo. Ancorado nesta mentalidade bíblica, ele sabe que Deus é o Deus da História: é na vida dos homens que se desenrola o seu projeto de amor.
Foi no seio mesmo da provação que se moldou a maneira tão particular que Libermann tem de ler a vida. As dificuldades por que passa — doença, humilhações, aparentes fracassos, longas esperas — tornam-se para ele lugares privilegiados onde experimenta a ação de Deus. A sua maneira de viver os momentos decisivos da sua existência revela um percurso profundamente marcado pelo acolhimento do Espírito nos acontecimentos. Ele descobre que Deus não se programa e que não se pode prendê-lo: é preciso esperar a sua Hora, em paz e paciência, permanecendo atento aos seus “momentos”. Avançar demasiado depressa, agitar-se ou querer forçar as coisas equivale, segundo ele, a afastar-se da ação do Espírito. Por isso, convida a deixar de lado toda a pressa e toda a inquietação para deixar Deus conduzir.
Libermann não procura Deus no extraordinário, mas no tecido comum da vida. A sua convicção é simples e radical: Deus fala através dos acontecimentos. Assim, toda a sua vida é marcada por uma espera confiante: ele não força nada, não apressa nada, não se apoia nas suas próprias forças, mas espera a Hora de Deus, convencido de que a Providência abre sempre uma saída. Esta maneira de se manter no presente de Deus alimenta nele uma confiança serena, fruto da sua total docilidade ao Espírito que se lhe revela.
Questões para reflexão
- Em que acontecimentos concretos da minha vida (felizes, comuns ou difíceis) consigo reconhecer hoje a presença discreta, mas real, do Espírito que me guia?
- Que pressas, preocupações ou vontade de controlar as coisas sou convidado a deixar de lado para aprender, como Libermann, a esperar a Hora de Deus em paz e confiança?
Oração
Senhor Deus, damos-Te graças pela Tua presença ativa e operante no coração das nossas vidas.
Ensina-nos a reconhecer os teus “momentos” nos acontecimentos que nos moldam,
Livra-nos da agitação, da impaciência e da necessidade de controlar tudo.
Dá-nos a paz interior que nos permite esperar a tua Hora, e a confiança na tua Providência.
Que, tal como Libermann, saibamos viver o presente com um coração disponível, dóceis ao teu Espírito, abertos à tua obra e prontos a caminhar humildemente ao ritmo que traças para nós.
Ámen.
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