Palavra de Deus: (At 1, 14)
“Todos, num só coração, perseveravam na oração, juntamente com algumas mulheres, entre as quais Maria, mãe de Jesus, e com os seus irmãos.”
Reflexão dos Fundadores
A espiritualidade espiritana traz, desde a sua origem, uma marca profundamente mariana. Poullart des Places quis que a consagração espiritana fosse inseparável de um vínculo privilegiado com Maria, modelo de total docilidade ao Espírito. O ato fundador do Seminário do Espírito Santo testemunha isso com força: no Pentecostes de 1703, doze estudantes reúnem-se à sua volta para se consagrarem ao Espírito Santo sob a invocação de Maria concebida sem pecado, aos pés da Virgem Negra de Nossa Senhora do Bom Sucesso. Este gesto não se resume apenas à piedade; ele reatualiza, de certa forma, o Cenáculo. Tal como a primeira comunidade cristã que esperava a força do alto “num só coração, com Maria” (At 1,14), estes jovens reúnem-se à sua volta para acolher o Espírito.
Essa convicção está presente em Libermann. De facto, a 25 de setembro de 1841, com Frédéric Le Vavasseur e Eugène Tisserant, ele celebra a missa de fundação da Sociedade do Sagrado Coração de Maria em Notre-Dame des Victoires. Ao dar à sua comunidade missionária um nome profundamente mariano, ele inscreve-se claramente na esteira aberta por Poullart des Places. Ao explicar a Regra provisória de 1840 aos seus noviços, Libermann sublinha que a consagração não se dirige simplesmente a Maria, mas ao Coração de Maria. Esta escolha, precisa ele, não é o resultado de um cálculo ou de uma estratégia: impôs-se a ele como uma atração interior, um impulso poderoso. Ora, esta orientação não é secundária: ela toca o próprio cerne da vida apostólica. Para exercer o apostolado com fecundidade, é preciso o Espírito; e, depois de Jesus, onde encontrar o espírito apostólico na sua forma mais pura, senão no Coração de Maria? Esse coração, “cheio do Espírito”, é um “coração eminentemente apostólico”, inflamado pelo desejo da glória de Deus e da salvação das almas?[1]
Essa convicção é novamente expressa com força na Regra de 1849, onde Libermann apresenta o Coração de Maria como “o modelo perfeito de fidelidade a todas as santas inspirações do Espírito Divino e da prática interior das virtudes da vida religiosa apostólica” (ND X, 568).
[1] Cf. Glosa 18, em Regra Provisória dos Missionários do Sagrado Coração de Maria, 1.ª parte, cap. 2, art. 3, texto e comentário do P. Libermann, pro manuscripto, pp. 17-19.
Reflexão
Se a espiritualidade espiritana é mariana, é porque, desde o início, a nossa consagração foi entendida como inseparável de uma relação filial com a Virgem. Poullart des Places fez essa experiência: a sua confiança, como criança, em Maria moldou a sua maneira de se entregar ao Espírito e preparou o gesto fundador realizado aos pés de Nossa Senhora da Boa Libertação. Ao escolher o Pentecostes para a fundação, inscreve a jovem comunidade na dinâmica do Cenáculo: com Maria, aberta ao Espírito, pronta para ser enviada.
Em Libermann, essa intuição torna-se ainda mais explícita. Desde o seu batismo, ele descobre em Maria uma presença maternal que o introduz a Cristo e ao Espírito. A sua devoção é serena, interior, profundamente filial. Ele vê nela “o sucesso de Deus”, o modelo perfeito de docilidade às inspirações do Espírito, e um refúgio onde depositar as suas fragilidades. Para ele, Maria não cessa, do alto do céu, de trabalhar pelo crescimento da Igreja: ela continua o que realizou nos primeiros dias da Igreja.
O Coração de Maria torna-se assim, para Libermann, ao mesmo tempo modelo e fonte: modelo do zelo apostólico que deve animar os missionários, fonte onde eles bebem luz, força e paz. A consagração mariana que ele propõe constitui um pilar central: é o caminho mais seguro para aprender a docilidade, a paz interior e a disponibilidade missionária.
Na tradição espiritana, Maria ocupa um lugar central: ela é um polo de unidade, aquela que reúne, abre ao Espírito e dispõe os corações para a missão. Com ela, a espera transforma-se em disponibilidade, e a comunidade forma-se no mesmo movimento que a Igreja nascente: unida, em oração, dócil ao sopro do Espírito. Para o missionário espiritano, Maria torna-se naturalmente um modelo de fidelidade, uma fonte de força e de luz, um refúgio nas provações e um guia seguro para permanecer na paz do Espírito.
Ser verdadeiramente filho e herdeiro de Poullart des Places e de Libermann é colocar-se na escola de Maria para aprender com ela a maneira correta de ser missionário. Ao deixar o nosso coração ser moldado pelo contato com o dela, a nossa maneira de agir simplifica-se, unifica-se e abre-se mais ao Espírito. Assim, a missão deixa de ser, em primeiro lugar, aquilo que nós realizamos: torna-se aquilo que Deus pode e quer realizar em nós.
Questões para reflexão
- A que conversões somos chamados para que a nossa forma de viver em comunidade — ou em família — se torne um verdadeiro anúncio do Evangelho?
- Será que as nossas comunidades despertam o desejo de acreditar na fraternidade cristã? O que é que, na nossa forma de viver, atrai, suscita questões ou desmotiva? Que sinais do Espírito discernimos nelas?
Oração
Maria, Mãe do Senhor e nossa Mãe,
tu, modelo perfeito de docilidade e de zelo apostólico,
tu, cujo Coração está cheio do Espírito, voltamo-nos para ti.
É a ti, e ao teu Coração, que estamos consagrados.
Unidos num só coração contigo, nos cenáculos das nossas comunidades, aguardamos os sinais do Espírito. Ensina-nos a docilidade e conduz-nos pelo caminho do zelo apostólico.
Contigo, oferecemo-nos ao Espírito Santo, para que Deus realize em nós a sua obra de santificação.
Por Jesus Cristo, nosso Senhor. Ámen.
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